Entre impérios e notificações: lições de Marco Aurélio para viver com serenidade emmeio ao caos diário
- ogladio2024
- 24 de out. de 2025
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Por Matheus Sampaio Leão Ganem
“Desconhecer o que se passa na mente alheia não torna um homem infeliz. A infelicidade está em não saber o que se passa na sua própria alma.”
Livro 2, 8 – Meditações
Marco Aurélio, imperador romano entre os anos de 161 e 180, é lembrado não apenas como governante, mas também como pensador que soube unir poder e reflexão. Ao lado de Sêneca e Epicteto, compõe a chamada tríade de ouro do Estoicismo greco-latino. Essa doutrina filosófica propõe que a verdadeira liberdade não está em controlar os fatos externos, mas em dominar a si mesmo, cultivando virtudes como sabedoria, justiça e temperança. Em meio às responsabilidades do império e às turbulências de sua época, Marco Aurélio transformou a filosofia em prática diária, revelando como a serenidade pode ser mantida mesmo diante do caos diário.
Ao escrever Meditações, Marco Aurélio não pretendia oferecer ao mundo um tratado filosófico, mas sim registrar, em forma de diário – ainda que não no sentido convencional – reflexões pessoais que o ajudavam a manter a mente firme diante das provações do poder e da vida cotidiana. Essas anotações, feitas ao longo de diferentes momentos do seu governo, tornaram-se vestígios do Estoicismo. Neste artigo, proponho uma análise de alguns livros específicos da obra, com o objetivo de destacar neles passagens que revelam não apenas a lucidez do imperador, mas também orientações práticas que ainda têm capacidade de guiar a vida contemporânea. Se para Marco Aurélio o caos vinha da guerra e da política, hoje ele se manifesta no excesso de informações e de notificações que disputam, sem pausa, a nossa atenção.
Livro 2
“Comece a manhã dizendo para si mesmo: encontrarei com um indiscreto, com um ingrato, com um insolente, com um mentiroso, com um invejoso, com um insociável.”
Essa passagem, que inaugura as ideias propostas no livro 2, revela a intenção do imperador de preparar a mente para o inevitável. Ele reconhece que, ao longo do dia, independentemente de nosso planejamento, encontraremos pessoas e situações que testarão nosso equilíbrio. A proposta estóica, então, não é evitar esses encontros ou tentar mudar o comportamento alheio, mas controlar nossa reação diante deles. Dessa forma, a paz de espírito é tida como alvo e os sentimentos externos não deterioram o raciocínio.
No contexto contemporâneo, podemos traduzir esse ensinamento para o “caos diário”: seja uma cobrança de última hora, um comentário ofensivo nas redes sociais ou o estresse de múltiplas responsabilidades acumuladas. São figuras negativas, desafiadoras e, sobretudo, inevitáveis. Assim como o pensador recomenda preparar-se mentalmente para essas situações, podemos aplicar estratégias semelhantes hoje, como manter foco naquilo que realmente não foge do nosso controle, cultivando consciência e disciplina interior. Marco Aurélio nos convida a refletir que os erros guiados pelo desejo corrompem mais do que os atos tomados pela raiva, pois revelam uma vontade afastada da razão.
“Teofrasto, em sua análise filosófica dos maus hábitos, compara, como poderia compará-las um homem segundo o sentido comum, que as faltas cometidas por desejo são mais graves que as cometidas por ira. Porque o homem irado parece desviar-se da razão com certa dor e aperto no coração; enquanto a pessoa que peca por desejo, derrotado pelo prazer, mostra-se mais fraco e lânguido em suas faltas. Com razão, pois, e de maneira digna de um filósofo, disse que o que peca com prazer merece maior reprovação que o que peca com dor. Resumindo, o primeiro se parece mais a um homem que foi vítima de uma injustiça prévia e que se viu forçado a sentir ira por dor; o segundo lançou-se à injustiça por si mesmo, movido a agir por seu próprio desejo.” Livro 2, 10 – Meditações
Livro 2, 10 – Meditações
Livro 5
“Ao amanhecer, quando for difícil se levantar, recorra a este pensamento: desperto para cumprir uma tarefa própria de homem.”
Estabelecer um propósito de vida é, sem dúvidas, uma tarefa árdua e complexa para muitos. No entanto, o livro 5 apresenta uma solução eficaz para vencer a imobilidade causada pela indecisão. O texto propõe uma filosofia de vida pautada no propósito como o núcleo da existência humana, convidando o indivíduo a “cumprir uma tarefa própria de homem” ao despertar, em contraposição à preguiça. Essa exigência de se levantar para o dever e alinhar a vida com os acontecimentos naturais vai ao encontro do conceito filosófico de Amor Fati (amor ao destino), visto com frequência em Nietzsche, mas com raízes claras na filosofia estóica. O Amor Fati não exige apenas a aceitação resignada da nossa "tarefa própria de homem", mas também abraçá-la.
“Gere em você impressão semelhante ao cumprimento e consumação do que decide a natureza comum, como se fosse a sua própria saúde. E da mesma forma abrace tudo o que lhe acontece, ainda que lhe pareça penoso, porque conduz àquele objetivo, à saúde do mundo, ao progresso e ao bem-estar de Zeus.”
Livro 5, 8 – Meditações
No dia a dia, entretanto, parece que nos afastamos dessa postura de aceitação ativa. Reclamamos constantemente de pequenos contratempos do dia a dia: o trânsito que atrasa, as filas que parecem não ter fim, os prazos apertados no trabalho e, até mesmo, o clima instável. Essas queixas revelam uma incapacidade de ver cada situação como oportunidade de aprendizado ou crescimento. A tendência moderna é a de se fixar na frustração, ao se esquecer que abraçar os acontecimentos, mesmo os penosos, é o caminho para a serenidade, para o progresso pessoal e para a harmonia com o mundo ao nosso redor, tentando sempre extrair o melhor das coisas.
Livro 7
“O que é vício? Algo que você viu tantas vezes. A todo acontecimento, tem presente a ideia de que é uma coisa que já viu muitas vezes.”
Nesse livro, Marco Aurélio enfatiza que os acontecimentos são corriqueiros e efêmeros. As dificuldades, os conflitos e as decepções humanas já se apresentaram inúmeras vezes na história, em diferentes formas e contextos. Essa percepção retira o peso excessivo do momento presente, pois nos faz compreender que o que hoje parece insuportável já foi vivido e superado antes. Ao reconhecer esse ciclo constante da vida, cultivamos serenidade e diminuímos o assombro diante das crises, das mudanças repentinas e da avalanche de informações que caracterizam o nosso cotidiano.
A constatação supracitada convida o indivíduo a abandonar o espanto diante daquilo que sempre retorna, e a concentrar sua energia naquilo que depende de si. Ao notar que vícios e injustiças se repetem, ele rompe com a ilusão de que o mundo deveria agir conforme nossas expectativas e desejos. Essa visão se conecta diretamente à ansiedade contemporânea: em meio às redes sociais, à política e às relações cotidianas, ainda nos deparamos com as mesmas atitudes humanas que provocam agitação. O estoicismo nos lembra que não cabe a nós exigir a mudança do outro, mas renovar constantemente nossas próprias convicções e atitudes diante do que parece se repetir sem fim. Mudar o outro é impossível.
“É ridículo não tentar evitar sua própria maldade, o que é possível, e, em troca, tentar evitar a dos demais, o que é impossível.” Livro 7, 71 – Meditações
Suas reflexões não envelhecem, pois tratam de questões que atravessam séculos: como manter o equilíbrio diante da imprevisibilidade e como encontrar a serenidade em meio ao excesso de estímulos e fatores externos. Se em seu tempo eram as pressões da política e da guerra, hoje são as notificações incessantes, as comparações sociais, a velocidade e o crescimento da tecnologia. O estoicismo, quando nos convida a olhar para dentro e a cultivar virtudes que independem do exterior, mostra-se um remédio para a inquietação contemporânea. Marco Aurélio nos recorda que a verdadeira força está em governar a si mesmo, uma arte que continua sendo urgente no século XXI.
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