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Espetacularização do fenômeno democrático: a dança das cadeiras

  • ogladio2024
  • 12 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Beatriz Barbosa de Jesus Oliveira



À primeira vista, o episódio da cadeirada dada em Pablo Marçal por José Luiz Datena pode parecer jocoso e entretido, mas revela a sobreposição do caráter midiático a quaisquer aspectos outrora considerados parte da orquestra democrática. Todo movimento engendrado por um grupo específico de políticos metidos a digital influencers parece ser calculado para gerar reações no público e engajar seus perfis nas redes sociais. Surge então uma dúvida oportuna: será a democracia uma peça teatral centrada na dança das cadeiras de quem soa mais absurdo?


Não é de hoje que o "vitimismo" exacerbado no cenário da política eleitoreira é utilizado como ferramenta de marketing digital e televisivo para reforçar, cada vez mais, a demonização dos posicionados à esquerda, enquanto ecoa o messianismo, fazendo parecer que ser intolerante é um ato revolucionário. Donald Trump é um personagem notório desse corpo teatral: com um tiro de raspão na orelha, o ex-presidente exibiu um curativo que virou acessório entre seus apoiadores e o colocou na posição mais desejada pelos políticos de sua espécie — a de personagem perseguido e censurado pela sociedade.


Um exemplo nacional emblemático ocorreu nas caóticas eleições de 2018, quando Jair Bolsonaro, então candidato à presidência, levou uma facada durante um ato de campanha em Juiz de Fora. As fotos da hospitalização do hoje inelegível rodaram a internet e acabaram por reforçar suas mobilizações políticas, que o vendiam como a oposição ao esquerdismo e a solução para as mazelas sociopolíticas brasileiras — uma vez que a suposta tentativa de assassinato reiterava a ideia de que Bolsonaro era uma espécie de herói salvador, metido a revolucionário da ordem social.

Milhares são os exemplos que demonstram a espetacularização do fenômeno democrático nas mídias e na televisão. As eleições pós-modernas são marcadas por mais do mesmo: discursos falaciosos baseados no ódio à esquerda — ou ao que quer que se entenda por esquerda — e performances ridículas que exalam coitadismo e, ao mesmo tempo, messianismo com tendências fascistas e fundamentalistas. Nesse jogo, é impossível que o modelo democrático saia vitorioso. Aqui impera a dança das cadeiras, marcada por uma guerra de exibicionismo, em que cada participante sobrevivente precisa se submeter a colocar uma salada de frutas na cabeça e reproduzir o discurso populista que, apesar de batido, é o que mais conquista o eleitor médio brasileiro.


A democracia vive sob um teto de vidro constantemente e, por isso, necessita se autoafirmar e se reinventar a todo momento. A tolerância a modelos diversos — inclusive antidemocráticos — revela que nosso sistema vive sob constante ameaça e questionamento.


Outro personagem que sai perdendo é o povão, que se ilude com a eleição de "Pablos" e "Bolsonaros", acreditando que os males brasileiros serão combatidos. Esquece-se, porém, de que esses são os verdadeiros inimigos das políticas públicas de afirmação e redistribuição: são o suco puro do coronelismo republicano. Para o brasileiro médio, o que deve ser debatido é a legalização do aborto e das drogas, a educação sexual nas escolas e o “comunismo” — ignorando os problemas de base que precedem essas pautas: a pobreza, a fome, a violência.


Pensar em tudo isso dá vontade de recorrer ao nomadismo, voltar à sociedade das cavernas, esquecer os avanços tecnológicos e retornar à vida selvagem. Mas a nossa resposta é urgente e precisa vir acompanhada de mobilização e organização: desistir da luta pela democracia, neste ponto, é entregar nossos corpos ao covil.


A nossa cadeirada deve vir nas urnas.

Não deixemos o autoritarismo esmagar as lutas sociais.

 
 
 

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