Indicação de leitura - Baudolino
- ogladio2024
- 5 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Por Ricardo Calderaro Batista Filho
“Se queres transformar-te num homem de letras, e quem sabe um dia escrever histórias, deves também mentir e inventar histórias, pois, senão, a tua História ficaria monótona. Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas”.
Quando um professor ou parente tenta sondar os gostos e aptidões de um jovem em busca de possíveis vocações profissionais, algumas premissas já são verdadeiros clichês. Se o jovem possui aptidão com os números, dirão: “É natural que se torne um engenheiro!”. Caso a veia criativa desponte em tenra idade, afirmarão: “Nasceu destinado às Belas Artes!”.
Agora, se esse jovem devora um livro atrás do outro e tem na literatura uma de suas principais fontes de lazer, não tardará para que alguém aponte: “Como lê! Esse vai ser um bom advogado!”.
Em meu retorno à universidade, acabei confirmando esse estereótipo (e imagino que eu não seja o único!). Tendo isso em vista, não pude deixar de ficar empolgado com o convite do Gládio ao corpo discente: recebi a inesperada oportunidade de conciliar uma atividade extracurricular ao meu amor pela literatura.
Há diversas obras literárias que, além de emocionar, são capazes de expandir enormemente as perspectivas dos futuros operadores do Direito. Me parece natural usar o espaço do Gládio para divulgar um convite, uma provocação, um chamado, que desperte nos estudantes a curiosidade pelas obras clássicas e populares e suas não raras conexões com o Direito.
Decidi começar com meu livro favorito, o romance “Baudolino” (2000), do escritor italiano Umberto Eco (conhecido, sobretudo, por seu primeiro romance, “O Nome da Rosa”).
No livro, acompanhamos Baudolino, um misterioso camponês, que narra a história da sua vida ao historiador Nicetas Coniates após salvá-lo do saque de Constantinopla em 1204. Baudolino lhe explica que, antes de mais nada, ele é um mentiroso. Comenta como, através de seu grande conhecimento das leis e sua habilidade com a retórica, conseguiu manipular e enganar os poderosos para influenciar momentos de grande importância no século XII. Revela também que a consequência última de suas mentiras é sua infelicidade.
Ficamos sabendo de sua infância no norte da atual Itália e como, através de sua simpatia, lábia e grande astúcia, foi adotado ainda muito jovem por Frederico I, do Sacro Império Romano-Germânico. Vendo grande potencial no jovem Baudolino, o imperador decide que ele deverá ser educado para atuar na corte como ministro. Baudolino é enviado ao Studium de Paris (um precursor daquilo que viria a se tornar a universidade) e se torna um erudito. Ao retornar à corte, passa a auxiliar o imperador nas turbulentas águas da política italiana medieval.
Frederico I possuía uma ambição quase irrealizável: estabelecer na Itália feudal e fragmentada o seu governo centralizado. Assim como hoje, a legitimidade de um governante era uma de suas principais preocupações, e a legitimidade da autoridade imperial era questionada de múltiplas maneiras.
Desde Carlos Magno, o Imperador do Ocidente não é latino ou grego, e sim germânico (gerando desconforto nas cidades italianas). Baseados no princípio do translatio imperii, o colegiado dos príncipes germânicos se afirmava o sucessor do Estado romano, e o imperador reivindicava sua autoridade sob o pretexto de ter sido escolhido pelos príncipes eleitores. Isso tornou Frederico apto a ser coroado rei da Itália em Pavia e, posteriormente, imperador em Roma. Ser coroado pelo Papa deixava o imperador em situação paradoxal: ao mesmo tempo que dependia do pontífice para ratificar sua autoridade sobre as cidades italianas, o imperador limitava sua autonomia ao vincular sua legitimidade à Igreja (que poderia excomungá-lo). Simultaneamente, era preciso recusar a aclamação do Senado Romano (pois ligar a coroa a uma eleição de homens do povo a deixaria menos legítima perante os demais reis da Europa), gerando mais atritos com os italianos. Por fim, a autoridade de Frederico I também era questionada pelo Império do Oriente, onde se reivindicava que Constantinopla era a única sucessora legítima do Estado romano.
Essas circunstâncias, somadas ao fato de a sede imperial geralmente estar além dos Alpes, tinham por resultado a influência enormemente reduzida dos imperadores germânicos sobre as cidades italianas, que se governavam sozinhas, geralmente através de cônsules eleitos.
Neste contexto, Baudolino começa a se destacar de seus pares na corte graças à sua astúcia. Com o raciocínio sempre afiado, Baudolino faz tudo ao seu alcance para expandir os poderes de seu pai adotivo.
Baudolino não tardou a perceber que o reconhecimento da autoridade está mais relacionado a símbolos e à aparência do que ao respeito pela tradição (não nos esqueçamos de que Eco foi um dos maiores estudiosos de semiótica do século XX). Sem muito pudor, Baudolino começa a propor estratégias que subvertem as expectativas do jogo político da época, muitas vezes usando fraudes e falácias deliberadas, como falsas equivalências e precedentes imperfeitos (ou inventados).
A fim de legitimar a autoridade do imperador sobre o Estado, Baudolino prepara uma maquinação na qual os mestres do Studium de Bolonha emitem um parecer concluindo dois princípios: I) que a única lei é a romana e o único que a representa é o Sacro Romano Imperador; e II) o princípio do quod principi placuit legis habet vigorem (isto é, tudo que convém ao príncipe tem vigor de lei). Em contrapartida, Frederico concede ao Studium plena autonomia e liberdade de pensamento, criando a Universidade de Bolonha (a primeira da Europa).
Posteriormente, Baudolino prepara outra estratégia, dessa vez para que o imperador possa competir com a autoridade espiritual do Papa. Desde o primeiro imperador do Sacro Império (Carlos Magno), todos os seus sucessores têm sido coroados pelo Papa, submetendo assim a autoridade imperial à autoridade pontifícia. A fim de contornar a situação, Baudolino sugere que se aproveite um momento de turbulência da Igreja para promover a canonização de Carlos Magno. Deste modo, o imperador passa a se afirmar como o sucessor de um santo, estando livre de qualquer autoridade, até mesmo do Papa.
Não pensem, porém, que essas mentiras fazem de Baudolino o vilão de nossa história. Pelo contrário! Baudolino é um mentiroso, mas é possível afirmar que é um mentiroso honesto. Averso à violência, às guerras e às mortes, Baudolino torna-se um herói, à sua maneira, ao usar seus artifícios para também evitar guerras e conter o ânimo beligerante de seu pai adotivo.
A principal mentira de Baudolino, porém, está relacionada ao místico Reino de Preste João, o Paraíso Terrestre, um reino de incalculável riqueza e justiça, governado há séculos pelo rex et sacerdos (rei e sacerdote). Fascinado pela história desde que a ouviu ainda criança de seu antigo mestre, Baudolino acumula ao longo de sua vida diversos textos sobre o reino místico e os compila durante sua época no Studium, até forjar uma carta supostamente escrita por Preste João em pessoa para seu pai adotivo. Como já se sabe, o Reino de Preste João não existe, e Baudolino perderá totalmente o controle sobre essa mentira (um alerta muito atual, tendo em vista o avassalador e crescente impacto da divulgação em massa de informações e notícias falsas).
Este meu texto não chega sequer a arranhar a dimensão deste livro. Como disse anteriormente, trata-se apenas de uma provocação. Este não é um romance de um tema apenas. Aqui, acompanhamos toda a vida de nosso herói improvável e atravessamos várias emoções. A paixão secreta pela imperatriz. A relação com os pais naturais e a cidade natal. Os amigos do Studium (o Poeta que não escreve, o apaixonado Abdul e todos os outros). A natureza do vazio. A cruzada. O mistério policial. A missa negra. Os gimnosofistas. O Velho da Montanha e a Ordem dos Assassinos. Pndapetzim. Sátiros e o amor verdadeiro. Espero que esse texto inspire outros estudantes a escrever e, acima de tudo, que deixe meu livro favorito um pouco menos desconhecido.
“Baudolino” tem 459 páginas, é publicado no Brasil pela Editora Record, traduzido por Marco Lucchesi e está disponível para locação na Biblioteca Central do Gragoatá.
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